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sábado, 26 de março de 2011

Feliz ano velho

A quarta-feira de cinzas é cinza mesmo. A volta é sempre cinzenta. É o ouvido zunindo no silêncio. Você volta pra casa com sono, cansado, ou quando está de carona, dormindo, mas tem consciência de que amanhã é o primeiro dia do ano. E em Salvador isso vai ser referência, mas sem significar que antes do carnaval tudo é festa, tudo é uma maravilha. Tudo é divino maravilhoso pra turista.

Depois do carnaval, todas as conversas começam no réveillon, que é o marco zero do verão pra quem mora em Salvador. Daí, elas dão voltas e mais voltas e quando começa a chover vem o assunto trabalho. Nesse momento, você percebe que o baiano trabalha desde o primeiro dia útil do ano. Mas sem fugir do tema "conversa", é partir daí que conta-se tudo o que se passou no verão trabalhando até chegar no carnaval, que traz mais um monte de histórias na terra (emprestada) do Rei Momo. O início da conversa termina no "é (Ah,)ano novo" ou então quando a chuva fica fraca, mas o vento começa a soprar, aí o assunto “É outono em Salvador” domina a conversa. Por causa disso é que o ano do baiano começa depois do carnaval, as conversas são iniciadas com as experiências veranistas e profissionais que antecedem a Grande Festa (Guerra Mundial não é escrito assim nos livros de História? A maior malandragem do mundo é viver!).

Pois é, assim como reza a lenda de que na Bahia é festa o ano inteiro, pelo menos nesse mito de que quinta-feira pós-carnaval é 1º de janeiro no calendário baiano, vocês podem acreditar em partes ou até acreditar, desde que tenha sempre em mente que o baiano passa janeiro e fevereiro trabalhando e as "férias de janeiro" duram apenas de quinta-feira a quarta-feira de cinzas. Pra ficar mais fácil de gravar isso, é só não se esqueçer que domingo é dia 31.

E no primeiro treino oficial do ano, o menino Sebastian Vettel resolveu largar os bonecos e os carrinhos e, pisar fundo dentro daqueles carrões que você não ouve o barulho do motor e quando olha no velocímetro já passou dos 200Km/h, meter quase 1 segundo em todo mundo, sem dar vez pra alguém arrancar sua pole. O primeiro grid de largada do ano só é novo, porque Lewis Hamilton resolveu se meter no meio das Red Bulls, ficando com a 2ª posição, deixando Mark Webber, dono da casa, na 3ª colocação. O espanhol Fernando Alonso ficou a 200 milésimos atrás de Jenson Button, isto é, o espanhol tem muito leite pra tirar da pedra vermelha ao longo da temporada. Alonso larga em 5º. Feliz ano novo Fórmula 1!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Vem pra Bahia!


Para dar a largada num GP de Fórmula 1, o famoso “1, 2, 3 e Já” das brincadeiras de criança, cinco luzes vermelhas se acendem. O “Já” é quando todas as 5 luzes apagam de vez.

Domingo acenderá a primeira luz vermelha para o carnaval de Salvador. O verão já está enfiando o pé na porta. Dia 05 de dezembro terá o primeiro ensaio da Timbalada no verão 2010/2011.

Sou fã da Timbalada, não me canso de falar que é a única banda de axé que me faz parar durante uma festa apenas para ver a música. Sim ver a música. Um show de músicos, cantores que você gosta é sempre assistido e não apenas ouvido. Você fica parado em êxtase ouvindo sua banda predileta tocar. Claro que tem aqueles que dançam, que vão pro bate-cabeça, mas mesmo assim a música é o que mais importa naquele momento.

Tem festas de axé que sei quem vai tocar, mas nunca lembro de ter ouvido tocar nenhuma música. É porque nessas festas, a música é apenas um detalhe. Não gosto da música de Ivete Sangalo, de Cláudia Leitte, de Asa de Águia, Chiclete com Banana, Banda Eva e Cia limitada. Respeito todos eles, afinal de contas não conquistaram a legião de fãs a toa, alguma coisa eles tem, eu é que não consigo ver nada. Mas a Timbalada é diferente. É a Nação Zumbi do axé.

Criada por Carlinhos Brown que hoje não faz mais parte no oficial, mas que tudo passa pela aprovação e tem o DNA dele. É como se Carlinhos Brown fosse Don Vito Corleone depois que Michael Corleone assumiu o comando da família recebendo do seu pai o Don no nome. A Timbalada caminha com as próprias pernas, mas sempre anda com os conselhos de “Don” Carlinhos.

Por ser timbaleiro, no meu calendário o verão começa no primeiro ensaio da Timbalada e vai até o último ensaio, no primeiro domingo pós-carnaval. A partir daí começa o inverno em Salvador, o período de chuva. Mas não vamos falar do final e sim celebrar a chegada do verão.

É no verão que Salvador faz jus a estória que o povo conta de que aqui é festa todo dia. Durante o verão sim, é festa de segunda a segunda. Tem os ensaios da Timbalada q cada quinzena, tem ensaios do Harém, ensaio da Banda Eva, Trivela (festa do Asa), Cerveja e Cia Folia (de Ivete), Ensaio Geral (do Chiclete), Evanave (da Banda Eva) e Cláudia Leitte também tem a festa dela, só que agora não me lembro.

Tudo isso vai ser depois que as luzes vermelhas se acenderem e se apagarem. A primeira acenderá domingo, mas, assim como na Fórmula 1, a quinta não vai demorar muito de acender e muito menos as cinco vão demorar pra apagar.

"Vai começar, hein!?!"

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A César o que é de César

O Carnaval na Bahia cresce a cada ano. Não em tamanho da festa ou popularidade, mas ele tem sido extendido cada vez mais em sua duração. Antes, o carnaval começava na quinta-feira. Na véspera do carnaval, quarta-feira, os pequenos blocos de fanfarra vão para o Farol da Barra. Eram poucas pessoas que iam para a rua atrás deles. A quantidade de gente era tão pequena que o trânsito nem era interditado. Os carros podiam passar entre as pessoas, claro que lentamente, mas podiam.

Esse ano foi diferente, tinha uma multidão na rua na quarta-feira. Virou carnaval. Outro indicativo foi a quantidade de gente que tinha nas lanchonetes da cidade as 4h da manhã, para comer antes de ir para casa. Meu carnaval de 2010 começou na terça-feira. O que antes era quarta, passou a ser terça.

Hoje recebi um e-mail da Central do Carnaval. Vocês que não moram em Salvador, mas estão sempre ligados no carnaval daqui, já devem ter ouvido falar dessa loja ou já compraram os abadás nela. A Central do Carnaval vende abadás de diversos blocos, inclusive pela internet. Pois bem, voltando ao assunto, recebi um e-mail deles com a seguinte propaganda.



Já estão vendendo o Carnaval de 2011 e, de quebra, dando o São João de 2010.

É nesse ponto que eu queria chegar. Estão matando a tradicional festa do São João. Antes as facadas não estavam sendo em pontos vitais. Agora só querem saber de fígado, coração e pescoço. O Carnaval está tomando conta do São João. As principais atrações do São João são Asa de Águia, Chiclete com Banana, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Timbalada e por aí vai. As atrações secundárias? Cavaleiros do Forró, Forró do Miúdo, Seu Maxixe, Estakazero, entre outros. Aviões do Forró, Calcinha Preta são um dos poucos focos de resistência. Ainda são anunciadas como principais atrações, batem de frente, ou melhor, acham um espaço do lado das bandas de Axé.

Mas o Axé já está quase atingindo seu objetivo de conquistar 24 territórios e 1 continente a sua escolha. Antes as festas de Axé no São João duravam 1 ou, no máximo, dois dias. Como geralmente as pessoas chegavam dois ou três dias antes, a cidade ficava lotada, os bares entupidos de gente e o forró rolando nas caixas de som. A festa era nas ruas das cidades. Agora, as festas de Axé são no mínimo 2 dias, o que não sobra tempo para curtir a cidade e suas "minhocas" (as pessoas da terra, que nasceram e moram naquela cidade). Dançar forró com as minhocas agora é só para os guerreiros que ainda tem gás de ir pra praça depois de uma tarde inteira e início de noite de carnaval em pleno São João.

Por favor Durval, Ivete, Bel e cia, deixem a sanfona, o triângulo ditar o ritmo da festa. Se contentem apenas com o "curto" verão baiano que começa em agosto e só termina no primeiro domingo pós-carnaval. Deixem o São João pro Forró, todos tem seu direito a um lugar ao sol.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Oceano de gente

Existem filmes e filmes. Tem filmes foram feitos para serem assistidos apenas uma única vez. Outros são feitos para serem vistos diversas vezes e cada vez será uma sensação, uma lição, uma observação diferente. Na terça-feira de carnaval assisti Profissão de Risco mais uma vez. Já perdi a conta de quantas foram, de encontrá-lo entre uma zapeada e outra pegando na metade pro final, e pegar do início ao fim. Dessa vez, foi em dvd e vi do início ao fim.
Depois de quatro anos consecutivos saindo de Gandhy, nesse carnaval não consegui comprar a fantasia. Deixei pra fazer negócio em cima da hora. Quando a procura é muito maior do que a oferta, o preço do produto atinge proporções estratosféricas. A sede do Gandhy já fechada, enquanto que na rua tinha um ou outro cambista vendendo a fantasia por 400 reais. Para quem tinha pagado 120 reais no ano anterior, não pensei duas vezes em recusar a oferta. Voltei pra casa de mãos vazias. E fui pro camarote do Guetho pra ver o show da Timbalada no meio do carnaval.
Lá em cima no camarote, vi como é bonito ver o desfile dos principais trios, os blocos de corda (Chiclete, Jammil, Asa de Águia, André Lellys). A multidão em volta do trio e todo mundo pulando ao mesmo tempo, parecendo as ondas no mar. E com o mexe-mexe das ondas, as espumas terminam quebrando o verde do mar com um toque de branco, o mesmo acontece na avenida, com os Filhos de Gandhy na corda dos blocos, dando o tom de branco no mar de gente, escolhendo e sendo escolhidos na corda pelas foliãs do Camaleão, Me Abraça, Balada, Me Ama. Depois que os blocos de corda passam, é a vez dos trios independentes, os sem corda. São os blocos do povo, da mistura do carnaval. E no meio do povo, claro, os Filhos de Gandhy, porém não mais na corda e sim atrás do trio, distribuindo beijos e colares. E eu lá de cima, confirmando o que já vinha sempre frisando. Meu lugar é lá embaixo, na rua e não em camarote.
No filme Profissão de Risco, se não estiver enganado, nas cenas deletadas, George Jung (Johnny Depp) e Pablo Escobar estão selando uma parceria. Pablo chama George num lugar isolado para conversar pra conhecer e saber das intenções do americano antes de repassar qualquer grama de mercadoria para ele. Pablo pergunta como George ver a vida e o americano diz: "A vida é como o oceano. Tem que se afogar nele para sentir sua intensidade. Pablo gostou da filosofia de vida de Jung e fecham negócio.
O carnaval é o oceano. Um oceano de gente. Gente de todo o tipo, peixe pequeno, peixe grande. O oceano é bonito, misterioso, inspira aventura, porém ele traiçoeiro, a luta pela sobrevivência é intensa. A sensação de liberdade naquela imensidão é algo incrível. A mesma coisa é a alegria do carnaval, a beleza do mar do de gente. Correr atrás de um trio na voz de Bel, Durval, Ivete é ótimo, mas a corda em volta impõe um limite. O trio independente puxado pela voz da guitarra de Armandinho te dá prazer e o fato de não ter corda te passa uma sensação de liberdade, porém a duração de um circuito como o Barra/Ondina é de apenas 4 a 6 horas. Pode parecer muito para peixinhos de beira-mar, mas não é nada diante da imensão do oceano de gente durante os 7 dias de folia. E além disso, existem os peixes maiores e quando aquela onda termina, o instinto de sobrevivência volta a dominar.
O Filhos de Gandhy é famoso por dois motivos. O motivo real, o mais nobre é o de estender o tapete branco na avenida representando a Paz. O segundo motivo é o algazarra, como diz a música do Chica Fé, "E aí? Quer trocar meu colar por um beijo?". E as mulheres são loucas pra ganhar alguns colares. Gandhy tem uma mística para as mulheres um brilho a mais, principalmente para as de fora. É como se fosse um carimbo de que realmente esteve no Carnaval de Salvador, tem que beijar um Gandhy e voltar com pelo menos um colar na mala. E os Gandhys tocam terror mesmo. De lá de cima eu vi. Mas a definição de vida de Jung, pode ser usada para definir Carnaval vestido de Filhos de Gandhy. Sair de Gandhy no Carnaval é se afogar no oceano e sentir sua intensidade. Gandhy é respeitado e admirado por todos. Ninguém mexe com Gandhy, ninguém procura briga com Gandhy, é aquele mesmo esquema de emprego público, no qual você só é demitido se fizer uma grande merda, se você não pretende fazer isso, ficará lá até a aposentadoria que ninguém vai mexer com você.
De Gandhy, policial pede licença, ladrão não te rouba, ninguém vai procurar briga com você. Trânsito livre nos dois circuitos da Folia. Aí você pode sentir o verdadeiro espírito do Carnaval. A brincadeira segura, jogando alfazema no ar, a curtição, a risada, o colar, o beijo, onde ninguém é de ninguém e todo mundo é de todo mundo. Esse é o significado do carnaval para mim. E não a corda de bloco que separa os iguais dos iguais, os camarotes que mantém a ilusão da sociedade de que alguns poucos iguais tem que ficar acima da maioria dos iguais. Carnaval é todo mundo brincando junto na rua.