segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Oceano de gente

Existem filmes e filmes. Tem filmes foram feitos para serem assistidos apenas uma única vez. Outros são feitos para serem vistos diversas vezes e cada vez será uma sensação, uma lição, uma observação diferente. Na terça-feira de carnaval assisti Profissão de Risco mais uma vez. Já perdi a conta de quantas foram, de encontrá-lo entre uma zapeada e outra pegando na metade pro final, e pegar do início ao fim. Dessa vez, foi em dvd e vi do início ao fim.
Depois de quatro anos consecutivos saindo de Gandhy, nesse carnaval não consegui comprar a fantasia. Deixei pra fazer negócio em cima da hora. Quando a procura é muito maior do que a oferta, o preço do produto atinge proporções estratosféricas. A sede do Gandhy já fechada, enquanto que na rua tinha um ou outro cambista vendendo a fantasia por 400 reais. Para quem tinha pagado 120 reais no ano anterior, não pensei duas vezes em recusar a oferta. Voltei pra casa de mãos vazias. E fui pro camarote do Guetho pra ver o show da Timbalada no meio do carnaval.
Lá em cima no camarote, vi como é bonito ver o desfile dos principais trios, os blocos de corda (Chiclete, Jammil, Asa de Águia, André Lellys). A multidão em volta do trio e todo mundo pulando ao mesmo tempo, parecendo as ondas no mar. E com o mexe-mexe das ondas, as espumas terminam quebrando o verde do mar com um toque de branco, o mesmo acontece na avenida, com os Filhos de Gandhy na corda dos blocos, dando o tom de branco no mar de gente, escolhendo e sendo escolhidos na corda pelas foliãs do Camaleão, Me Abraça, Balada, Me Ama. Depois que os blocos de corda passam, é a vez dos trios independentes, os sem corda. São os blocos do povo, da mistura do carnaval. E no meio do povo, claro, os Filhos de Gandhy, porém não mais na corda e sim atrás do trio, distribuindo beijos e colares. E eu lá de cima, confirmando o que já vinha sempre frisando. Meu lugar é lá embaixo, na rua e não em camarote.
No filme Profissão de Risco, se não estiver enganado, nas cenas deletadas, George Jung (Johnny Depp) e Pablo Escobar estão selando uma parceria. Pablo chama George num lugar isolado para conversar pra conhecer e saber das intenções do americano antes de repassar qualquer grama de mercadoria para ele. Pablo pergunta como George ver a vida e o americano diz: "A vida é como o oceano. Tem que se afogar nele para sentir sua intensidade. Pablo gostou da filosofia de vida de Jung e fecham negócio.
O carnaval é o oceano. Um oceano de gente. Gente de todo o tipo, peixe pequeno, peixe grande. O oceano é bonito, misterioso, inspira aventura, porém ele traiçoeiro, a luta pela sobrevivência é intensa. A sensação de liberdade naquela imensidão é algo incrível. A mesma coisa é a alegria do carnaval, a beleza do mar do de gente. Correr atrás de um trio na voz de Bel, Durval, Ivete é ótimo, mas a corda em volta impõe um limite. O trio independente puxado pela voz da guitarra de Armandinho te dá prazer e o fato de não ter corda te passa uma sensação de liberdade, porém a duração de um circuito como o Barra/Ondina é de apenas 4 a 6 horas. Pode parecer muito para peixinhos de beira-mar, mas não é nada diante da imensão do oceano de gente durante os 7 dias de folia. E além disso, existem os peixes maiores e quando aquela onda termina, o instinto de sobrevivência volta a dominar.
O Filhos de Gandhy é famoso por dois motivos. O motivo real, o mais nobre é o de estender o tapete branco na avenida representando a Paz. O segundo motivo é o algazarra, como diz a música do Chica Fé, "E aí? Quer trocar meu colar por um beijo?". E as mulheres são loucas pra ganhar alguns colares. Gandhy tem uma mística para as mulheres um brilho a mais, principalmente para as de fora. É como se fosse um carimbo de que realmente esteve no Carnaval de Salvador, tem que beijar um Gandhy e voltar com pelo menos um colar na mala. E os Gandhys tocam terror mesmo. De lá de cima eu vi. Mas a definição de vida de Jung, pode ser usada para definir Carnaval vestido de Filhos de Gandhy. Sair de Gandhy no Carnaval é se afogar no oceano e sentir sua intensidade. Gandhy é respeitado e admirado por todos. Ninguém mexe com Gandhy, ninguém procura briga com Gandhy, é aquele mesmo esquema de emprego público, no qual você só é demitido se fizer uma grande merda, se você não pretende fazer isso, ficará lá até a aposentadoria que ninguém vai mexer com você.
De Gandhy, policial pede licença, ladrão não te rouba, ninguém vai procurar briga com você. Trânsito livre nos dois circuitos da Folia. Aí você pode sentir o verdadeiro espírito do Carnaval. A brincadeira segura, jogando alfazema no ar, a curtição, a risada, o colar, o beijo, onde ninguém é de ninguém e todo mundo é de todo mundo. Esse é o significado do carnaval para mim. E não a corda de bloco que separa os iguais dos iguais, os camarotes que mantém a ilusão da sociedade de que alguns poucos iguais tem que ficar acima da maioria dos iguais. Carnaval é todo mundo brincando junto na rua.

4 comentários:

Raissa disse...

carnaval de Salvador.. Um dia estarei nessa terra do axé.

beijos

Magui disse...

Já fui no carnaval de Salvador. Impressionante mesmo.
Suas observações sobre as segregações é importante mas deixou de fora a segregação da mulher no Gandhy.Pelo que vc descreveu é jogo semelhante à prostituição onde o homem paga com um colar os favores sensuais da mulher.

Vinicius Grissi disse...

Ah o Carnaval da Bahia. Ainda vou ter este privilégio! Ano que vem, quem sabe?

Net Esportes disse...

Ao contrário da maioria eu tô fora, pra mim Carnaval só é legal porque é feriado prolongado !!!!! he he he ...... realmente samba e axé music não me agradam nem um pouco.

Quanto ao filme: sensacional.